Uma seleção única de documentos excepcionais

Diferencie-se e invista em seu patrimônio cultural e financeiro a partir de R$ 300.

desenhos antigos

Desenhos antigos e contemporâneos

Os salões e os leilões dedicados aos desenhos antigos e contemporâneos, que acontecem no fim de março, em Paris, são ótimas oportunidades para conhecer esse tipo particular de arte, que requer um profundo conhecimento artístico. Muito mais baratos que as pinturas, atraem cada vez mais amadores de objetos antigos. A consequência : os preços disparam.

Com dezessete anos de existência, o Salão do desenho, que acontece entre 9 e 14 de abril, tornou Paris a capital mundial do mercado de obras em papel. Acompanhado pelo Salão do desenho contemporâneo, depois por uma das feiras “off” (oficiais) da FIAC (Feira Internacional de Arte Contemporânea), Slick, que organiza um evento com esse tema, ele atrai para Paris colecionadores, curadores e investidores do mundo inteiro. Dúzias de museus aproveitam para divulgar suas melhores obras. As casas de leilão não ficam atrás : Christie’s, Tajan e Artcurial realizam suas vendas especiais.

Até mesmo Louis-Antoine Prat se surpreendeu. Junto de sua esposa Véronique, ele reuniu uma coleção de desenhos antigos franceses, dos séculos XVII ao XIX, que de tão importante recebeu o reconhecimento de museus franceses e americanos. Historiador de arte, leciona na “École du Louvre”. Ele se questiona, alegrando-se, o que significa esse entusiasmo : “Entre os salões, as galerias que se aproveitam da situação e as casas de leilão, vamos expor nessa semana cerca de 3000 pinturas. Não sei a quem eles esperam vender tanto”. Isso, pois os colecionadores de desenhos antigos são um clube restrito, por volta de quarenta na França e algumas centenas pelo mundo.

Os desenhos antigos são avaliados por critérios rigorosos

O valor de um desenho reside em ser uma obra única em papel, elaborada de uma só vez, retratando o talento do artista : podem ser feitas a lápis (grafite), tinta (mistura de água, pó de carvão e goma arábica), sépia (material marrom produzido por algumas espécies de lula), carvão (carvão vegetal), sanguínea (tinta de cor avermelhada), esfuminho (rolo apertado de material absorvente), pedra negra (traço grosso e realces brancos), lavis (uma só cor diluída), pastel (em bastão), aquarela (pintura diluída em água), croquis, esboço, traços, desenhos preparatórios…

Existem muitas características que influenciam a qualidade e o valor de uma obra, e ainda mais variáveis que fazem com que os desenhos raramente possuam assinatura, além de que muitas vezes ela é mal autenticada, feita por um pupilo. É fácil confundir o traçado de Quillard com o de seu mestre Watteau, por sua vez discípulo de Gillot, ao passo que esses artistas colaboravam entre si. Porém, um estudo do primeiro é estimado em 7.500 euros, enquanto um do segundo gira em torno de 120.000 euros e um do terceiro, por volta de 40.000 euros. Logo, o trabalho de um especialista se mostra essencial, sendo sempre uma atitude sábia consultar um antes de realizar uma compra.

Além da assinatura certificada do artista ou do carimbo de seu atelier, a qualidade da execução, o tema tratado, a natureza da obra e o estado de conservação também estão entre os critérios do valor de um desenho. Os mais visados são ilustrações preparatórias de alguma obra renomada : esses podem ultrapassar a casa dos milhões de euros. O que não é o caso da imensa maioria, que, por sua vez, também é submetida aos efeitos da moda. Para a arte antiga, quadros e monumentos são os mais procurados (portanto 20% a 40% mais caros) que os de temática religiosa ou de festas galantes. Mesmo sendo possível encontrar pinturas antigas (a grande maioria), modernas (pouco comuns nos anos 1950) e contemporâneas (uma nova geração vem sendo produzida) a partir de 100 euros, a maior parte dos desenhos estimados são negociados entre 1.000 e 5.000 euros, enquanto os trabalhos mais notáveis ultrapassam 10.000 euros. Ainda assim, custando de 10 a 200 vezes menos que uma obra do mesmo artista.

Antes de colecionar pinturas

Ao contrário dos colecionadores de pinturas ou esculturas, acostumados com lances de milhões, o amador que coleciona desenhos é como um jovem simpático. Um jeito inocente, como o do filatelista. Uma ocupação também erudita e modesta : os detalhes tornam necessário o uso de óculos e até mesmo de lupas. Arrogante, o quadro se impõe a ele, de longe. Para um desenho, é preciso se inclinar. O colecionador é frequentemente um principiante : com preços ainda razoáveis, os desenhos antigos geralmente se tornam a passagem para a coleção de pinturas. “Meus meios não me permitiam colecionar quadros de grandes mestres, explica Louis-Antoine Prat, debruçado sobre um delicioso Watteau. Mas seus desenhos, sim”. Sua coleção, da qual parte foi doada ao Museu do Louvre, sob o direito de usufruto, “não custava mais que uma única pétala dos Lírios de Van Gogh”, escreveu em um artigo.

Os ponteiros do tempo se moveram e, com eles, a moda também. Aquele bom e velho desenho, que parecia estar condenado a um lento declínio, hoje vê os colecionadores de arte contemporânea mais sensatos cada vez mais interessados por ele. Para Gregory Rubinstein, diretor do departamento de desenhos de mestres antigos de Sotheby’s, os recém-chegados ao mercado de leilões são atraídos por esse tipo de obra, pois se trata da expressão de um trabalho mais íntimo e espontâneo, uma espécie de “projeto em desenvolvimento” que não apresenta o aspecto concluído – e, como consequência, acadêmico – de um quadro do século XVIII. Esse é o motivo pelo qual os leilões de desenhos antigos atraem uma clientela pronta a investir importantes somas de dinheiro.

Um mercado que decolou a partir de 1978

Já faz trinta anos que os desenhos antigos, julgados frágeis pelos curadores de museus, permanecem armazenados nos estoques. Isso explica o porquê dessa expressão artística ter se mantido discreta em um mercado de arte em plena expansão : os grandes colecionadores eram poucos, eruditos e afortunados, geralmente de idade avançada e sem interesse em expor suas obras. Hoje em dia, porém, o mercado mudou seu status. Museus expõem suas obras ao grande público. Mas foi sobretudo o leilão Von Hirsch no qual, em 1978, em Londres, um desenho de Dürer foi avaliado, para a surpresa dos especialistas, com o preço recorde de 650.000 libras, seguido rapidamente de outros leilões milionários, que provocou um entusiasmo mundial pelo desenho.

O Museu Getty, na Califórnia, também revolucionou a situação. Sr. Prat conta, na revista “Revue de l’art”, como um jovem empregado desse museu, George Goldner, em 1981, convenceu seus superiores de que, se a obra pintada dos mestres era bastante conhecida, o corpus de seus desenhos ainda precisava ser explorado. Logo, o museu americano se pôs a realizar compras em massa, resultando em um estouro nos preços e no conhecimento : “Em trinta anos, a multiplicação de catálogos, teses, pesquisas, causou um maior progresso na história da arte do que em um século”, disse Sr. Prat. O Salão do desenho apoiou o esforço realizando um colóquio que teve os desenhos de escultores como tema para esse ano.

O desenho contemporâneo, um mercado embrionário

Segundo os destaques do site ArtPrice, a cotação dos desenhos antigos também dobrou entre 1992 e 2002. Excetuando a queda (-27%) relativa à especulação de 1987, os preços aumentam com regularidade entre 3% e 8% ao ano. Em 2012, o mercado mostrava-se promissor, tanto que os colecionadores mais jovens e menos ricos passaram a ser seletivos, pois um desenho pode apresentar diferentes técnicas, menos ou mais apreciadas.

O desenho contemporâneo é um mercado embrionário : por volta de 14% dos 61.000 desenhos espalhados pelo mundo a cada ano são feitos por artistas em atividade. A cotação também progride : ainda segundo o ArtPrice, ela é de 52% em um ano para os artistas nascidos após 1945, contra 70% para a pintura. Além disso, os preços são acessíveis. ArtPrice cita um dos artistas mais caros do mundo, o britânico Damien Hirst. Frequentador de leilões milionários, em 2007 viu um de seus desenhos ser vendido em Christie’s por 4.200 euros. Sendo que frequentemente são encontradas obras em papel de grandes nomes da arte francesa, como Blais, Combas, Hyber, di Rosa ou Cognée, por valores entre 1.000 e 5.000 euros.

Como dar vida a uma coleção de desenhos antigos ?

Em 26 de março, uma quinta-feira, às 18 horas, acontece no Drawing Now uma mesa-redonda entitulada “Como dar vida a uma coleção de desenhos ?”, animada por Guy Boyer, diretor de redação da revista “Connaissance des Arts”, com Véronique Souben, diretora do “FRAC Haute-Normandie” (Fundo Regional de Arte Contemporânea da Alta Normandia), Gilles Fuchs, presidente da “ADIAF” (Associação para a Difusão Internacional da Arte Francesa), Benjamin Peronnet, diretor internacional do Departamento de desenhos antigos e do século XIX da galeria Christie’s e Aurélie Deplus, responsável pela seção de patrocínio artístico do banco “Société Générale”. O evento enche a casa. A mesa-redonda aborda as quatro etapas pelas quais uma coleção passa: constituição, conservação, apresentação e transmissão.

1. A constituição

Segundo Benjamin Peronnet, um dos problemas referentes ao desenho antigo é a rarefação da oferta, o que torna difícil a constituição de uma grande coleção dedicada a um só domínio, como um período ou uma escola. Essa tarefa, no entanto, cabe aos FRAC, cujas coleções possuem quase 30 anos, como lembra Véronique Souben. Ela explica que orienta as aquisições da instituição, junto de seus quatro colegas do comitê de seleção, priorizando as obras que possam completar as coleções já iniciadas.

Gilles Fuchs, enquanto colecionador, afirma não temer diversificar seu acervo, embora seja muito apegado ao papel como suporte, mais frágil, sensível e íntimo. Além disso, com exceção de alguns artistas, o desenho é bem mais acessível que a pintura e a escultura. Trata-se de um bom começo para um colecionador iniciante. Gilles Fuchs, como Véronique Souben e Aurélie Deplus, admite comprar principalmente nas galerias, que normalmente conhecem bem os gostos e anseios de seus clientes. No “Société Générale”, a coleção teve início há 20 anos para decorar novos espaços em “La Défense” (A Defesa), um centro de conservação, dinamização e aquisição de coleções estabelecido em 2003 – com um orçamento anual de 300.000 euros para aquisições. São frequentes as atividades de mediação cultural.

2. A conservação 

A conservação varia de acordo com a instituição ou estabelecimento. Os FRAC não dispõem dos recursos dos museus, e Véronique Souben prefere divulgar as obras ao máximo, seguindo o interesse do artista, e sempre tomando precauções. A princípio, após uma exposição, um desenho antigo deve ser resguardado durante três anos. Gilles Fuchs contenta-se em armazená-los em arquivos e consultá-los de tempos em tempos. Eles devem ser protegidos da luz. Muitos se encontram em péssimo estado, o que diminui seu valor, exceto para os puristas, explica Benjamin Peronnet. A restauração por imersão funciona bem para obras em grafite e em carvão, mas muitas vezes sua intensidade é comprometida. No “Société Générale”, duas pessoas são responsáveis pela restauração dessa coleção ainda muito jovem.

3. A apresentação

Aurélie Deplus explica que o objetivo da coleção do “Société Générale” é, antes de mais nada, a exposição nas agências e para o público. As obras se revezam e, as que não são exibidas, podem ser emprestadas a museus. A coleção também é disponibilizada na Internet. De acordo com Véronique Souben, esse é o mesmo caso dos FRAC : os editores são temerosos no que concerne à edição dos catálogos. A Internet acaba por se tornar uma das melhores opções. No entanto, esse é um trabalho árduo, pois se faz necessário obter todos os direitos autorais.

4. A transmissão

Gilles Fuchs não tem, especificamente, a ambição de criar uma fundação : seus filhos devem poder decidir o destino de seu acervo. Aurélie Deplus, ao contrário, afirma que o “Société Générale” não pretende vender nenhum item de sua coleção, mas justamente o oposto : ele deseja aumentá-la. Isso levanta a questão da inalienabilidade das obras dentro de instituições públicas, que Véronique Souben defende energicamente. Até mesmo a venda de obras de menor importância para a aquisição de outras mais interessantes pode constituir uma ameaça para a história da arte. É imprescindível preservá-las para que não desapareçam. Então, como é possível para Peronnet realizar seu trabalho ? Ele recorre à regra dos três Ds : divórcio, decesso e dívidas. Muitas vezes os herdeiros sofrem uma certa angústia por não saberem como conservar uma coleção importante e acabam decidindo vendê-la – uma liberdade que Gilles Fuchs pretende deixar a seus filhos. É interessante notar que, de acordo com Benjamin Peronnet, 90% dos desenhos antigos são vendidos por menos de 10.000 euros, enquanto os 10% restantes atingem altos montantes, na casa dos milhões.

Três Salões para os apaixonados

Criado em 1991 por um grupo de comerciantes parisienses, o Salão do desenho reúne no Palácio Brongniart trinta e seis galerias (17 francesas e 19 estrangeiras) dos melhores da profissão, que expõem mais de 1000 desenhos da Renascença a 1970, ilustrando as escolas francesas, italianas, alemãs, britânicas ou do Norte. www.salondudessin.com

Em sua segunda edição, o Salão do desenho contemporâneo aconteceu em um imóvel do bairro Saint-Augustin. Ele reuniu 55 galerias, cada uma em um apartamento, exibindo obras de 1948 aos dias de hoje. www.salondudessincontemporain.com

Possuindo uma configuração modesta, com 9 exposições em 300 m², a Slick Dessin apresenta, em um imóvel na Rue de Richelieu, a dois passos do Salão do desenho, as obras de três jovens artistas. www.slick-paris.com/dessincontemporain

Um foco no Salão do Desenho de Paris, 2015

Sempre o mesmo, mas sempre renovado. O sucesso do Salão do Desenho comprova o dinamismo do mercado de arte parisiense, uma vez que, pelo menos, cinco jovens galeristas franceses expõem pela primeira ou segunda vez no “Palais de la Bourse”. A continuidade está garantida, pois muitos dos “veteranos” estão sempre lá, e há muito se espera por eles. Para alguns, trata-se de uma dinastia, como é o caso da galeria Prouté ou da galeria Bayser, que havia cedido mais de uma dúzia de desenhos desde a noite de inauguração. Ainda que algumas das vendas já estivessem relativamente concluídas antes da abertura do Salão, todos os galeristas que entrevistamos – inclusive os “jovens” sobre os quais comentamos – se mostraram muito satisfeitos, não somente pelas várias obras vendidas, mas também devido à importância dos visitantes. De fato, era possível ver, lotando os espaços, todos os colecionadores e curadores que importam para o mundo do desenho.

Ainda que as obras do século XX sejam numerosas, a especialidade do Salão continua sendo o desenho antigo e o do século XIX. Essa tradição é respeitada não somente graças a certos comerciantes já citados anteriormente, como também por obra dos “habitués” (frequentadores habituais), sejam parisienses, como as galerias Didier Aaron, Jean-François Baroni, Coatalem, Talabardon & Gautier, Terrades; ou londrinos, como as galerias de Jean-Luc Baron, Day & Faber, Bellinger-Colnaghi ou Stephen Ongpin; nova-iorquinos, como Pandora Old Masters, Mark Brady e Jill Newhouse; ou ainda galerias alemãs ou espanholas, igualmente frequentadoras do Salão (Arnoldi-Livie, Thomas Le Claire, Martin Moeller, Arturo Cuéllar…). Essa enumeração não exaustiva – não mencionamos as galerias especializadas no século XX, mas poderíamos citar também o belga Patrick Derom, que regularmente apresenta belas obras simbolistas – demonstra o caráter internacional dessa manifestação.

Ela também representa um encontro para a história da arte : além de ser um colóquio tradicional, com meio dia de duração, consagrado pelo segundo ano consecutivo a desenhos de arquitetos (as atas do anterior acabam de ser publicadas), cada edição dá espaço a uma exposição de obras provenientes de uma coleção pública ou privada.

Neste ano, é a Biblioteca Nacional da França, junto a uma comissão de Marc Le Coeur e a participação de Barbara Brejon de Lavergnée, que exibe cerca de quarenta desenhos arquitetônicos dos séculos XVI ao XX. Pouco se sabe, na verdade, que entre as maravilhas conservadas na Rue de Richelieu, encontra-se uma coleção de vários milhares de obras compradas ou oferecidas pelos maiores arquitetos.

o mundo das antiguidades
Escrito por

Mathias Meyer tem 41 anos, é colecionador e fundador da coleção Glórias, especialista em avaliação, compra e venda de documentos raros.