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Lembranças de um soldado nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial, em Verdun, na França.

39 cartas e desenhos do capitão do exército francês Léon Rohlfs De Sussex contando seu dia a dia de soldado nas trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial, no nordeste da França, perto de Verdun. 1914-1915. R$ 1.800.

O destinatário é a irmã dele, Marie. O estado geral dos documentos é bom, apenas algumas cartas estão sem data ou são difíceis de decifrar pois o soldado escreveu com letras muito pequenas.

O lote inclui também o anúncio de nascimento de Léon redigido pelos pais em 1875, e duas cartas que ele escreveu quando aluno na prestigiosa escola militar Saint Cyr. Em francês. Bom estado.

Extratos não traduzidos :

1895 – Léon explica a disciplina imposta pela escola militar : « Estou há quinze dias nessa pensão de um novo tipo (…). Devemos fazer a cama muito bem, para dar-lhe a forma de um paralelepípedo retangular, logo engraxar as botas, limpar a parte superior do seu armário, arrumar bem de modo que não vejamos qualquer dobra nas roupas ( …). Em seguida, vamos treinar ou para as aulas (topografia, fortificações, literatura, direito) dependendo da semana. »

02/09/1914 – Léon pensa que a vitória não vai demorar : « Os bavieros foram dizimados. »

21/09/1914 – Léon pondera : « Eu estou bem, mas meu batalhão sofreu bastantes perdas. »

16/11/1914 – Léon conta a rotina e os combates : « Nossos homens estão nas trincheiras até o pescoço de dia e trabalham de noite, cavando, para avançar. É a guerra de posição ; nós bombardeamos os acampamentos alemães e eles ripostam. Ontem à tarde, as primeiras bombas deles derrubaram o campanário da aldeia que fica mais ao norte (Malancourt) e mataram 3 homens do batalhão 173. »

21/11/1914, a noite – Léon sofre pelo frio : « Minha querida Marie, te agradeço muito pela balaclava que você me enviou. (…) Mas são os pés que não consigo aquecer, até alguém inventar sapatos aquecidos. Eu congelo quando não faço nada, apesar de me vestir igual a um esquimó. Você deve ter visto nos jornais que os alemães explodiram o quartel de St Michel e mataram 1683 homens. »

25/11/1914 – Léon explica, com um desenho, uma missão que ele assumiu : « Ontem eu fui com o general Berg às trincheiras de Béthancourt que haviam sido atacadas durante a noite. Alemães mortos ainda estavam no chão. »

26/12/1914 – De aniversário, Léon agradece Marie pela carta de parabéns e escreve que está muito ocupado : « Meu trabalho é fazer disparar 6 armas de uma vez, por um único homem, em certos pontos, cruzamentos, pontos de água, etc … Isso é chamado de pilhas de armas e atrai críticas a mim e pouca consideração : o mundo não é melhor na guerra do que na paz. »

13/01/1915 – O moral de Léon está baixo : « O ambiente em que vivo não é amigável, com algumas exceções. Estou bem fisicamente, meu humor não (…). A guerra é agora pouco interessante, as coisas estão paradas e estamos desanimados. Há muitos atritos entre nós, as conversas são estúpidas ou mal intencionadas ; há poucas calamidades como essa. »

13/02/1915 – O moral de Léon não melhora : « O desânimo geral me atinge mais do que as brigas, estou depressivo. »

25/05/1915 – Ferido, Léon escreve uma última carta : « Eu sofro demais desde que você me viu ; isto está além de qualquer coisa que eu poderia imaginar. Os médicos dizem que minha perna está bem, mas eu ainda estou com febre. A dor contínua que eu sinto na minha ferida me faz gritar diante de qualquer pessoa. »

A Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) é o momento trágico mais importante da história européia. Seu resultado – a humilhação da Alemanha – motivou em parte a Segunda Guerra Mundial e, finalmente, a construção da União Europeia para por um fim definitivo à rivalidade franco-alemã. A batalha de Verdun é particularmente emblemática dessa guerra horrível que matou, em ambos lados, milhões de soldados apavorados e civis inocentes.

Essa troca de cartas entre Léon, o capitão, e Marie, sua irmã, é emocionante e educativa. Muitos dos sentimentos humanos são expressos pela mão desse soldado : o medo, o orgulho, a raiva, a tristeza, o amor, a saudade, a amizade, o desprezo, o otimismo, o pessimismo, a solidão, a solidariedade, o sofrimento, a compaixão, etc. Ao ler essas linhas de Léon nas trincheiras, tentamos imaginar o inferno que esse homem jovem, brilhante, viveu. Sente-se um homem totalmente impotente diante o clima, a história e a natureza humana.

O famoso filósofo brasileiro Antonio Candido foi aluno em 1929 de Marie Rohlfs De Sussex, irmã e principal destinatária das cartas do soldado. Entrei então em contato com uma filha do erudito, Marina, professor na USP, que me retornou :

Olá Mathias, telefonei para meu pai agora e ele ficou pasmo ! Disse que Madame de Sussex foi muito importante na vida dele, pessoa por quem ele tem veneração. Ela foi sua professora em 1929 e tinha um irmão, advogado, que era um grande ferido de guerra, como eram chamados então. Não se lembra direito, mas crê que ele não tinha um braço ou uma perna. Que coincidência ! Um abraço, Marina.

♦ R$ 1.800 ♦