Em 1880, o Imperador escreve para um intelectual francês comentando a atualidade cientifica.

Carta manuscrita de Dom Pedro II para o General Arthur Jules Morin. Três páginas. Em francês. 13 cm x 20 cm. Petrópolis, dia 2 de fevereiro de 1880. Excelente estado.

(…) Não sei por que os químicos por vezes se amarguram com suas discussões acerca da teoria científica, cujos resultados não devem ser revelados antes dos fatos bem constatados. Muniez mesmo reforça os argumentos contra a atomicidade em seu último livro, que já estudei, mas sobre o qual não escreverei, somente ousando fazê-lo depois de muito refletir. O anuário do Bureau des Longitudes deste ano deve ser muito interessante em razão das notas (…).

Tenho prazer em reconhecer que (?) e Muniez, dos quais guardo maravilhosas lembranças, continuam a prestar grandes serviços à agricultura com seus trabalhos. As pesquisas sobre a (?) me parecem de uma imensa abrangência. A nota de Van Thiegem, o mais jovem acadêmico, também me interessou bastante. Ele seguiu a linha de Brongniart nos fazendo reconhecer os mesmos fenômenos da vida vegetal nas épocas atual e antediluviana. A escolha de Périer serviu bem para seus trabalhos geodésicos, que me entusiasmaram.

A vida que levo aqui é verdadeiramente tranquila. Eu gozo de mais tempo, o que também me deixa com vontade de me informar ainda mais sobre o que é feito para o progresso das ciências. Em breve, colocar-me-ei a estudar o segundo volume da obra magistral de Daubrée (…).

Gosto muito das aplicações da geometria que auxiliam tanto na precisão e na compreensão (…).

Muito interessado em ciências e tecnologia desde criança, Dom Pedro II estudou a vida toda línguas, astronomia, geologia, arqueologia e várias outras disciplinas. Através de leituras, observações, viagens e encontros, adquiriu aos poucos um real conhecimento nestes campos de pesquisa apesar do pouco tempo deixado por suas responsabilidades políticas e administrativas como Imperador do Brasil.

Muitas vezes acusado de indiferente às questões sociais e políticas do país, fazendo com que os jornais brasileiros o representassem frequentemente com uma luneta na mão, uma clara referência ao seu interesse pela astronomia, Dom Pedro era muito elogiado pelo mundo acadêmico, de literatos e cientistas, por seu amor e dedicação à arte e à ciência. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), por exemplo, recebeu desde sua fundação em 1838 o apoio do Imperador que participou de centenas de reuniões e financiou pessoalmente vários projetos de pesquisa.

Exilado na França no dois últimos anos de sua vida após a Proclamação da Republica, o Imperador deposto dedicou-se quase exclusivamente  às suas leituras, pesquisas e amizades científicas.

Na década de 1880 o Brasil continuava prosperando, desenvolvendo-se, inclusive socialmente com, por exemplo, o primeiro movimento pelos direitos da mulher. Porém, as cartas que Pedro II escreveu nesta época costumam mostrar um homem cansado e um pouco pessimista. Mesmo levando a sério suas responsabilidades como Chefe de Estado, liderava sem grande entusiasmo.

Escrita justamente em 1880, esta carta – em francês perfeito – mostra toda a curiosidade e o conhecimento de Dom Pedro em ciências. O Imperador comenta e opina, com bastante humildade, sobre algumas pesquisas do momento (astronomia, agricultura, botânica, geologia), sobre alguns grandes nomes da época (Brongniart, Van Thiegem, Périer, etc) e sobre ciência em geral (química, geometria). Enfim, particularmente interessante, esta frase :

A vida que levo aqui é verdadeiramente tranquila. Eu gozo de mais tempo, o que também me deixa com vontade de me informar ainda mais sobre o que é feito para o progresso das ciências.

Por que esse documento é raro ?

A carta é particularmente bonita, com papel e tinta em excelente estado. Notável também, a escrita elegante do Imperador, que assinou « D. Pedro d´Alcantara », um costume dele com seus correspondentes estrangeiros. Provavelmente uma das mais belas cartas « científicas » de Dom Pedro II que já vimos.