Em 1811, o Príncipe concede títulos aos nobres que financiam a corte e o exército.

Carta manuscrita do Príncipe Dom João VI para Manoel Marquês da Silva Brandão, da Bahia. 4 páginas. Em português. 24.5 cm x 38.3 cm. Rio de Janeiro, em 1811. Estado médio.

Eu O Principe Regente de Portugal, e dos Algarves, e do=
 Mestrado, Cavalleria, e Ordem de Nosso Senhor Jezus Christo. Faço
 saber, que Frei Francisco de Souza Paraizo Junior Cavalleiro Noviço
 da mesma Ordem; Me enviou a dizer, que tendo verdadeira devoçaõ de-
 viver, e permanecer na Ordem dezejava fazer a sua Profissaõ, para o-
 que Me pedia Houvesse por bem de o Admittir nella, e Sendo lhe
Eu Dispençado de ajuntar folha corrida, e vendo a sua devoçaõ, a ser elle
pessoa, que a Ordem, e a Mim pode servir: Hey por bem Admittilo á-
Profissaõ, e por este Mando, Dou poder, e Commissaõ a mesma pessoa
constituida em Dignidade Ecclessiastica que lhe lançar o Habito dos
Noviços, para que na mesma Igreja em que lhe Mandei lançar e Receba
a Profissaõ na forma das Definiçoens, cuja copia com este lhe será entregue
e de como assim o Receber lhe passará Certidaõ nas contas deste Alvará
que o Professo no termo de tres mezes, Remetterá á Minha Real Capel=
la de Nossa Senhora do Monte do Carmo, que serve de Cabeça da =
Ordem nesta Côrte, para se assentar no Livro da Matricula; e em
seu titulo se porá a verba, e se arrecadará no Cofre das Profissoens, e o Prior
Mor, ou quem suas vezes fizer lhe passará a Certidaõ, que lhe servirá
de guarda. Este se cumprirá sendo passado pela Chancellaria da Or=
dem. Rio de Janeiro oito de Janeiro de mil oito centros, e onze.

Principe

Extrato do livro « Uma História do Brasil em Manuscritos » de José Augusto Bezerra :

Dom João VI (1767 – 1826) foi um predestinado. Não nasceu para ser Rei, pela ordem de sucessão do trono, mas acabou sendo. Tornou-se Príncipe Regente dezessete anos antes da morte de sua mãe, D. Maria I. Foi o único a desnortear Napoleão, mantendo o reino de Portugal e a dinastia dos Bragança, que tinham sido apagados do mapa da Europa pelo tratado secreto de Fontainebleau, assinado entre França e Espanha em 1807.

Embora mal compreendido por alguns historiadores, que o qualificam de medroso, foi um vencedor em suas empreitadas e amou verdadeiramente o Brasil, desde que aqui chegou. Tomou decisões difíceis e passou à imortalidade como um soberano hábil e progressista.

Em 1808, quando chegou ao Brasil, o Príncipe Regente D. João tinha o firme propósito de preparar-se militarmente para combater Napoleão, pois supunha que o conflito entre Portugal e França chegaria, de modo inevitável, às Américas. Procurou organizar rapidamente as forças terrestres que eram poucas e sem unidade de comando : foi a origem de um futuro exercito brasileiro.

D. João foi um hábil politico. Para minimizar os conflitos entre os membros da nobreza, que o acompanharam na travessia do Atlântico, e a elite da terra, constituída, sobretudo, por ricos negociantes, adotou como estratégia a nobilitação daqueles que poderiam sustentar financeiramente a permanência da corte no Rio de Janeiro.

Na condição de Rei, após a morte da sua mãe D. Maria I, em 20 de março de 1816, foi pródigo na distribuição de títulos de Cavaleiros, Comendadores e Grã-Cruzes das Ordens de Cristo, de São Bento de Avis e de Santiago. Seus sucessores, seu filho Dom Pedro I e seu neto Dom Pedro II, fariam o mesmo, concedendo títulos de Barão, Visconde, Marquês e Conde à aristocracia brasileira.

Este documento constitui um testemunho do procedimento descrito acima. O hábito de noviços da Ordem de nosso Senhor Jesus Cristo, sob a égide da qual o Brasil fora descoberto, é concedido a Manoel Marquês da Silva Brandão, honraria devidamente confirmada pelo documento apresentado aqui. Quanto ao agraciado, sabe-se que era da Bahia.

Por que esse documento é raro ?

Este documento foi escrito em 1811, apenas 3 anos depois da chegada de Dom João VI no Brasil. O Príncipe assinou muitos documentos, mas aqueles escritos inteiramente à mão por ele, são raros.