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Em 1914, o médico, refugiado em uma Londres com clima de guerra, parabeniza a mãe por seu aniversário.

Carta manuscrita de Oswaldo Cruz para sua mãe. 4 páginas. Em português. 12.7 cm x 20 cm. Londres, 22 de outubro de 1914. Excelente estado. R$ 3.500.

Minha preciosa Mãe,

Esta carta deverá te chegar às mãos nas proximidades de seu aniversário. É ela portadora dos mais vivos e sinceros votos pela sua felicidade e pela conservação de sua preciosa saúde, o nosso maior tesouro que guardamos todos nós com o maior nosso devotamento. Nesse dia estávamos todos nós em espírito a seu lado.

De que tem sido nossa vida aqui já estão sabiamente informada, pelas cartas de minha Médica que faz podem eu te informar com maior [minúcia] e mais arte de que eu do que aqui quotidiano se passa (…).

Nossa volta dependerá de desenvolvimento das coisas que tocam à guerra. Os mares não estão completamente livres e por isso e mais faço que, por enquanto, a Inglaterra é a levar em que ficássemos mais em separança, a não ser que saia mudança radical da sorte dos outros aliados. Nesse caso teremos que separar O caminho menos assinando que será a volta para aí.

Londres, apesar da separança que o abriu, é uma cidade triste. só folhas começaram a cair. O grande aparece falso envolvido em densa névoa cinzenta. Á noite não há iluminação – precaução contra os Neffilins que são esperados mas que não vieram e penso que nunca virão (…).

Osvaldo

Chamado de “Médico do Brasil”, Oswaldo Cruz (1872 – 1917) formou-se médico aos vinte anos, já mostrando interesse pela microbiologia, que ganhava importância graças aos estudos feitos pelo francês Louis Pasteur.

No fim do século XIX e início do XX, o Brasil passou pelo fim da monarquia e da escravatura. Multidões que viviam então no campo foram para cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Sem saneamento básico e com condições precárias de infraestrutura, doenças graves (febre amarela, peste bubônica e a varíola) surgiram. O Presidente da época pediu a ajuda de Oswaldo Cruz, que escreveu um código sanitário, incluindo a vacinação obrigatória e folhetos educativos para a população e os profissionais de saúde.

Apesar da Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, Oswaldo Cruz conseguiu reconhecimento nacional e internacional pela criação de um instituto – muito ativo até hoje – de pesquisa e ensino, além de produção de vacinas e medicamentos básicos para a população carente.

Por que esse documento é raro ?

Temos poucas informações sobre a vida pessoal de Oswaldo Cruz. Segundo a Brasiliana Itaú (página 542), « as cartas de Oswaldo Cruz são bastante raras, o que talvez seja devido a sua vida relativamente breve. A maior parte das cartas que se tornaram disponíveis para os colecionadores faz parte de uma correspondência familiar com seu cunhado, o pintor João Batista da Costa, que foi dispersada há alguns anos. »

Nara Azevedo e Ana Luce Girão Soares de Lima, pesquisadoras do Instituto Oswaldo Cruz, realmente reforçam que a carta confirma alguns elementos biográficos pouco documentados sobre Oswaldo Cruz.

A mãe | Há muito poucas cartas de Oswaldo Cruz para sua mãe em seu arquivo. Segundo os biógrafos de Oswaldo Cruz, ela era bastante culta para os padrões da época, fluente em inglês e francês. Seus pais eram professores na cidade de Petrópolis, que fica próxima ao Rio de Janeiro. Amália Bulhões Cruz alfabetizou seus seis filhos. A partir dos registros que temos nas cartas para sua esposa, vemos que Oswaldo Cruz frequentava teatro, ópera, espetáculos variados. Ele tinha uma grande demanda de livros, como vemos em sua correspondência com Paul Albanel, da firma Albanel et fils. que enviava também equipamentos e material científico. Poderíamos especular que seu gosto cultural foi influenciado por sua mãe ? O fato é que as referências a ela nas biografias são poucas e em seu arquivo pessoal também.

A doença | Lendo a carta a referência à medica (é a mulher) parece uma pista de que a doença já tomava a atenção da família. Como já comentei, a doença se intensificou alguns meses depois.

A viagem na Europa | Oswaldo Cruz estava na França com toda a sua família desde o início de julho de 1914. O objetivo da viagem era visitar os centros de pesquisa europeus e levar uma parente para tratamento na Suíça. Quando a França entrou na guerra, usou sua condecoração de Oficial da Légion d’honneur para conseguir um salvo conduto e levar a família para a Inglaterra, onde acreditava estar a salvo dos bombardeios dos aeroplanos alemães, que naquele momento atingiam Paris.

As dificuldades financeiras | (…) o seguinte endereço : 41. Queen’s Garden. Lancaster Gate. London. W., (…) era uma pensão modesta. Em Londres continuaram as dificuldades financeiras.

A estadia em Londres | Conheceu, acompanhado pela esposa, a Abadia de Westminster. Em outra oportunidade visitou a National Gallery em companhia de Graça Aranha, poeta e diplomata brasileiro, a quem provavelmente conhecera na Academia Brasileira de Letras. Oswaldo Cruz ficou em Londres desde final de agosto de 1914 até janeiro de 1915, e ao que se saiba, não desempenhou atividades científicas. Retornou ao Brasil sozinho e já bastante adoentado, mas teve que deixar lá família, por medo dos ataques aos navios que cruzavam o Atlântico.

♦ R$ 3.500 ♦