O inventor dos fusos horários expõe sua visão sobre a debatida teoria da evolução de Charles Darwin.

Carta manuscrita em italiano de Giuseppe Barilli para Andreini, um amigo médico. 4 páginas, cada página tem 13,6 cm x 21,2 cm. Cidade de Cento, Itália, 18 de agosto de 1872. Papel amarelado pelo tempo, algumas manchas, escritura com caneta de pena.

  • Vem com uma tradução do italiano para o francês dessa mesma carta por Andreini. 4 páginas, cada página tem 13,6 cm x 20,8 cm. Entre 1872 e 1879. Bom estado.
  • Vem também (sem imagem aqui) uma nota biográfica em francês sobre Giuseppe Barilli por Andreini. 3 páginas, cada página tem 13,6 cm x 20.8 cm. 1879. Bom estado.

Giuseppe Barilli (1812 – 1894) era um grande curioso, homem de reflexão mas também de ação. Matemático, astrônomo, inventor e político, ele contribuiu, por exemplo, corajosamente, na criação da República Italiana.

Por que esse documento é raro ?

Esse documento mostra o debate que gerou a publicação em 1859 do livro a Origem Das Espécies de Charles Darwin, um dos livros mais importantes da história da ciência, apresentando a Teoria da Evolução, base de toda a biologia moderna. Giuseppe Barilli, cientista, discorda de seu amigo médico e expõe sua visão.

Essa correspondência, entre dois amigos cientistas com opiniões muito diferentes, porém com um profundo respeito, tem um conteúdo científico muito raro.

Erasto Villa Branco, Professor de Evolução no Departamento de Genética da Universidade Federal Do Paraná, opina sobre esse documento :

Sendo esta carta de 1872, fica evidente que o autor era bem informado e disposto à aceitação de ideias novas da sua época. A carta contém várias ideias que na época eram discussões “quentes” e que agora “esfriaram” e pelo menos uma que ainda está bem “viva”.

É curioso que um darwinista ou meio-darwinista esteja considerando seu amigo materialista, pois esta era uma das principais acusações que pesavam sobre os próprios darwinistas. Os médicos eram mesmo mais céticos e mais materialistas, mas restringiam suas explicações aos fenômenos biológicos, orgânicos, às doenças e aos “estados da alma”.

A ideia que a Natureza seja hormônica é uma ideia que existe há muito tempo e ganhou grande reforço com o cristianismo antigo que julgava que o universo era uma obra pronta de Deus e, portanto, como Deus era considerado perfeito, sua obra também não poderia conter imperfeições. Esta é hoje uma ideia que não faz parte das discussões dentro da Ciência, mas está presente em muitas correntes filosóficas e religiosas.

Quanto à origem do Sistema Solar ele estava na época de acordo com o que a maior parte dos estudiosos de hoje. É quase consenso que o Sistema Solar formou-se da reunião de poeira originária de outros corpos que se desintegraram. Na época esta não era uma ideia com muito crédito. A ideia que existam formas de vida fora da Terra iguais às que existem aqui é uma ideia já completamente descartada. Isto tornaria necessária uma “canalização” que fizesse as espécies seguirem as mesmas “trilhas” evolutivas aqui e fora daqui. Isto não é mais aceito dentro da Ciência, embora de ouça muito falar disto fora dela.

Uma discussão de época que ainda está em curso é a da origem da vida. Está muito longe de apresentar um consenso. Existem várias tentativas de explicar e uma delas é a panspermia. É uma ideia antiga que teve um novo impulso dentro da Ciência por esta época, no final do século 19 e início do 20. Ele está posicionado em favor de uma das explicações que consideram a vida originária de fora da Terra. Mesmo Darwin em sua época não afirmava que a evolução dos seres vivos fosse uma evolução progressiva, ou seja, Darwin via a evolução como mudança e não como melhoria. O motivo que provavelmente leva Quirico Filopanti a afirmar isto é o mesmo que leva a maioria das pessoas de sua época a aceitar a evolução: o mundo estaria em contínua melhoria. Esta ideia não é mais válida hoje dentro da Ciência, mas continua sendo o motivo que leva a maioria das pessoas a aceitá-la. Finalmente, a ideia que uma espécie atual descenda de outra atual não é aceita pela Ciência de hoje mas é forte fora da Ciência, como ocorre com a outra ideia anterior. É claro que dentro da Ciência o que se considera são os compartilhamentos de ancestrais, mais proximamente ou mais distantemente.

Quirico Filopanti estava disposto a pensar nas ideias novas de sua época e tomava partido claramente em favor de algumas delas, de maneira geral mais concordantemente com as ideias atuais que a maioria de seus contemporâneos.

Novembro de 2010. Erasto Villa Branco, professor de Evolução no Departamento de Genética da Universidade Federal Do Paraná.