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A caminho de Nova Iorque para defender os direitos do Brasil, o Barão do Rio Branco reflete sobre a missão de diplomata.

Duas cartas manuscritas do Barão do Rio Branco, aliás, apelidado Juca, para um destinatário desconhecido (Avelino). Duas folhas, quatro páginas escritas, para cada carta. Em português. 20,2 cm x 25,4 cm.  A bordo do navio RMS Teutonic, em viagem para Nova Iorque. 22 de maio de 1893. Papel amarelado e fragilizado pelo tempo. Gostaríamos de agradecer à equipe de paleografia da UFMG para o trabalho de transcrição destas duas cartas.

Na primeira carta :

« Não tenho tido um momento de descanso desde a sua partida (…) veio-me a tal nomeação para Washington.

Na sua carta Você diz que agora me acho na carreira que mais me convem. Algumas vezes fallámos deste assumpto, e Você deve lembrar-se que eu sempre lhe digo que não quero saber de carreira diplomática. Naõ sirvo para isso, meu caro, por mutissimas razões. Basta apresentar duas: naõ tenho fortuna para sustentar a posição de ministro, e naõ devo renunciar a trabalhos que tenho em preparação para levar vida de jantares, recepções, etiquetas e festas. Naõ sou mais homem do mundo.

Aceitei esta missão porque é temporária e unicamente para a defesa de um território incontestavelmente nosso. É questão de historia e geographia que conheço perfeitamente, questaõ tratada por meo Pae em 1857. Naõ sei por quem soube o Governo que eu estava senhor de documentos novos e pretendia escrever sobre o assumpto: appeellou para mim, e eu naõ tinha o direito de excusar-me, allegando motivos de commodidade ou conveniencia pessoal.

Terminada a questão, volto para meo canto até que possa descobrir meio de adquirir alguma propriedade em São Paulo. Naõ quero saber de eminencias e grandezas, e essa abstenção, como Você sabe, vem de longe. Em tempos em que taes cousas pareciam mais duradouras e solidas eu já me tinha habituado a só desejar posições obscuras. Naõ devo modificar esse proposito nos dias agitados que atravessamos (…). »

Na segunda carta :

« Bem aborrecida esta vida de bordo! Estou robricando este papel sem saber bem o que escrevo. A’ bordo só posso dormir e comer: o balanço do navio torna-me preguiçoso e incapaz até de ter um romance. Estou no 5º. dia de viagem. Depois de amanhã devemos chegar a New York (…). Juca »

Em 2012 o Brasil comemorou o fim da gestão do Barão do Rio Branco (1845 – 1912) no Ministério das Relações Exteriores, valorizando o legado do patrono da diplomacia brasileira, em especial o referente aos Estados Unidos e à Argentina. Rio Branco fechou os limites do território nacional e estabeleceu as bases da tradição da diplomacia brasileira, procurando sempre diferenciar o Brasil das outras nações do segmento sul do hemisfério, caracterizadas por grandes dificuldades políticas e financeiras.

Neste conjunto de duas cartas o Barão do Rio Branco escreve do navio que o leva para Washington em 1893 para, segundo a Academia Brasileira De Letras, « (…) defender os direitos do Brasil ao territórios das Missões. A questão, estava submetida ao arbitramento do presidente Grover Cleveland, dos EUA, reivindicada pela Argentina. Rio Branco, advogando o ponto de vista brasileiro, apresentou ao presidente Cleveland exposição e valiosa documentação em seis volumes. O laudo arbitral de 5 de fevereiro de 1895 foi inteiramente favorável às pretensões brasileiras. »

Este conjunto de duas cartas é valioso pelo pensamento detalhado do Barão do Rio Branco sobre o trabalho – às vezes aborrecido – de um diplomata brasileiro (« jantares, recepções, etiquetas e festas »), seus objetivos para esta missão em particular (« a defesa de um território incontestavelmente nosso ») e suas aspirações para o futuro (« não quero saber de eminencias e grandezas »).

♦ R$ 6.000 ♦